A PANDEMIA DA DESINFORMAÇÃO

Um dos paradoxos modernos que vivenciamos é a propagação da desinformação em larga escala. Nunca na história da Humanidade tivemos acesso à informação por tantos meios diferentes, mas também nunca a desinformação teve tanto terreno fértil para se espalhar livre e rapidamente. É o que a pandemia do coronavírus tem mostrado desde que foi decretada em 11 de março de 2020. O presente artigo se propõe a apresentar informações que não ganham as primeiras páginas dos jornais, tampouco são manchetes nos maiores telejornais nacionais.

Uma primeira observação a ser feita é que parece haver uma verdadeira celebração quanto ao número de óbitos provocados pelo vírus chinês. Eu chamo de “tanatolatria” (do grego, “thanathos” = morte; “latreia” = adoração; “culto à morte”). O Brasil ultrapassou 300 mil mortes atribuídas à COVID-19 – atribuídas, porque não há certeza de que todas essas mortes foram de fato provocadas pela doença, afinal, não houve autópsia em todos os casos; e não se trata de negacionismo levantar essa objeção quanto a esse número. Para termos uma ideia disso, a secretaria de saúde de São Paulo informou que não houve caso de mortes por dengue, em 2020. Como assim? O número de mortes atribuído à COVID-19 foi estampado nas principais manchetes dos maiores meios midiáticos de modo que beirava uma celebração mórbida. São vidas perdidas!

Há uma clara intenção em não informar os pormenores da pandemia, pois “quanto pior, melhor”. A mídia poderia fazer seu papel de modo digno, informando tudo sem politizar um mal tão grande, que, por si só, já atinge em cheio a todos. Não se enfatizam o número de recuperados: no momento em que escrevo, foram totalizados 12,9 milhões de casos, sendo 328 mil mortes e 11,3 milhões de recuperados (letalidade de 2,5 %). A quantidade de recuperados deve ser celebrada. Se você abre qualquer portal de notícia da grande imprensa, perceberá que muito mais matérias frisando a mortandade provocada pela peste chinesa do que notícias que possam levar alguma esperança. E elas existem, mas não ganham espaço.

Se voltarmos ao início da pandemia, em março de 2020, veremos que havia uma clara diretriz que era fechar tudo, fazer quarentena para preparação do sistema de saúde para os desafios que a pandemia traria, visando ainda achatar a curva de contaminações. Fez-se exatamente isso, boa parcela da população colaborou. E aí o governo federal entrou em cena para socorrer estados e municípios nesse período crítico. Ao mesmo tempo em que essa ajuda de bilhões de reais foi destinada aos entes da federação e seus municípios, o presidente frisava a importância de se fazer um isolamento dos vulneráveis (idosos e doentes crônicos), enquanto os saudáveis mantinham, de modo cuidadoso, as atividades econômicas para não haver um colapso na economia, que geraria desemprego e fome em massa. Ele não só foi ignorado nesse apelo, como foi enfrentado por quase todos os governadores e prefeitos, que entraram no Supremo Tribunal Federal (STF) para administrarem como achassem melhor a pandemia.

Reconhecida a condução das medidas durante a pandemia de estados e municípios pelo STF, não foram isolados os casos de desvios de verbas destinadas à crise sanitária, valendo-se da dispensa de licitação para compra de equipamentos e insumos médicos. Esse escândalo, que derrubou dois governadores – o do Rio e o de Santa Catarina –, já é chamado de “Covidão”; outros estão sendo investigados. Houve ainda governadores que utilizaram os recursos para a pandemia para regularizarem os pagamentos das folhas de seu funcionalismo, como foi o caso no Rio Grande do Norte e Rio Grande do Sul.

O caos não parou por aí em desvios de verbas, superfaturamentos e utilização das verbas para pagar salários atrasados: ainda durante a vigência da pandemia, por volta de meados de 2020, diversos hospitais de campanha foram desativados Brasil afora, tão logo os números de contaminação deram uma diminuída. Outros hospitais sequer chegaram a funcionar. Desperdício de tempo e de recursos. E por que esse dado importa? Entre setembro e novembro, aconteceu a campanha eleitoral, com muitas aglomerações, o que poderia provocar um aumento nos casos de COVID-19. Somem-se a isso as festas de fim de ano e os números tornaram a crescer bastante no começo de 2021, levando a um quase colapso de um sistema público de saúde que já não era tão preparado, convenhamos. Os hospitais de campanha fizeram – e ainda fazem! – muita falta.

Os mesmos que brigaram na suprema corte para gerir as medidas no enfretamento da crise sanitária adotaram medidas que não encontram consenso na comunidade científica, como fechamento total (lockdown) de todas as atividades. O governador e o prefeito de São Paulo chegam a relacionar um percentual de lockdown efetivo ao número de vidas salvas, como se existisse algum estudo que corroborasse tais medidas. Não há. De novo: não há. Em Araraquara, colocou-se em prática um rígido lockdown: nos primeiros dias, os números de contaminados decresceram, seguindo-se um aumento nas contaminações e óbitos por coronavírus.

Há países que não adotaram o fechamento total e não viram seus sistemas de saúde colapsar. A Argentina tem um dos lockdowns mais rígidos e demorados do mundo, e os números de contaminados e mortos por COVID-19 não cessam de crescer. O que o governo daquele país tem conseguido é destruir a já combalida economia e gerar uma massa de miseráveis, famintos. O estado americano do Texas aboliu medidas restritivas e até o uso de máscaras. O número de contaminações não aumentou drasticamente. Já no estado de Nova York, onde se aplicam medidas sanitárias mais restritivas, o número de contaminações e óbitos é bem considerável. E por que comparar os dois estados americanos? Porque o Texas tem uma população mais de três vezes maior do que a população de Nova York.

Estou defendendo a abertura de tudo indiscriminadamente? Não! Estou trazendo dados de outras experiências que não sejam as que vemos serem adotadas por aqui e não surtirem efeitos muito positivos. E não obstante essas medidas atentarem contra a economia de estados e municípios, muitos são os relatos e flagrantes em vídeos de abordagens de fiscais, guardas municipais e policiais militares pelo Brasil de modo violento, promovendo humilhações e até ferimentos em pessoas que ousaram caminhar sozinhas na areia da praia, na praça, ou tentam ganhar o sustento de sua família, vendendo algo nas ruas. Até casas já foram invadidas por esses agentes. Não custa lembrar dos muitos comerciantes igualmente intimidados por essas autoridades, que continuam cumprindo ordens manifestamente ilegais, posto que só em “estado de sítio” é que medidas assim podem ser adotadas, com todo um trâmite entre a presidência da República e o Congresso. Nem na chamada “ditadura militar” (1964-1985) se viram cenas tão grotescas, posto que deveríamos estar em um “Estado democrático de direito”, não é mesmo?

Aqui vão mais uns dados para nossa reflexão. A França está com seu sistema de saúde quase colapsando, mas não vemos nenhum alarde quanto a essa informação. E olhe que é “a França”, um país de primeiro mundo. Outro dado intrigante é sobre o continente africano. Um continente com 1,216 bilhão de habitantes, apresenta 4,285 milhões de infecções, sendo atribuídas ao coronavírus as mortes de 113.000 pessoas. Lembre-se: é um continente inteiro. Para você ter noção, compare esses números com os do Brasil, no terceiro parágrafo. O que explicaria esse baixo número de contágio e de letalidade? No mundo, já são contabilizados 131 milhões de pessoas contaminadas, 74 milhões de recuperações e 2,84 milhões de mortes.

Agora, passemos abordar sobre a vacinação. O governo federal é acusado de negacionista e anticiência. As acusações amplamente veiculadas pela grande mídia não encontram respaldo nos fatos. Senão, vejamos. Ainda em março do ano passado, o governo brasileiro assinou um contrato para aquisição de 10 milhões de doses de vacinas produzidas pela Oxford. O que aconteceu é que, entre a contratação das doses da vacina – que ainda estava em fase de pesquisas – e a sua chegada, em janeiro deste ano, o governador de São Paulo fez um forte marketing para anunciar a parceria entre o Instituto Butantã e a Sinovac (laboratório chinês) para produção de uma vacina (Coronavac).

Como qualquer um pode buscar saber, as vacinas têm um tempo para desenvolvimento e testes, o que foi muito acelerado, dada a urgência da pandemia, logo, era natural a preocupação de quem iria adquirir os imunizantes para serem injetados na população. Essa preocupação demonstrada pelo presidente foi o suficiente para acusá-lo de negacionista e antivacina. Se, realmente, ele fosse antivacina, teria investido bilhões de reais em contratos para aquisição de imunizantes que sequer estarem prontos? Não era legítima sua desconfiança quanto aos possíveis efeitos colaterais dos imunizantes, dado que até os laboratórios se eximem da responsabilidade caso eles aconteçam? E o que falar da vacina anunciada pelo governador de São Paulo, que tem 95% de investimento do governo federal? Pois é…

Segundo o último levantamento, o governo federal já distribuiu mais de 40 milhões de doses de vacinas para todo o país, sendo aplicadas cerca de 19 milhões de doses. Isso representa menos de 10% da população brasileira. É importante frisar que há uma procura mundial pelas vacinas, sendo que a União Europeia está bastante atrasada na vacinação de seus países-membros. No vizinho Chile, mais da metade da população já foi vacinada, não obstante, 70% dela estão em quarentena.

É bom lembrar que há um meio de o número de óbitos por COVID-19 cair: o diagnóstico precoce (nos primeiros sintomas) e seu tratamento com medicações que milhares de médicos já atestaram surtir efeitos positivos. Não há porque politizar mais esta questão, já que estamos lidando com vidas. Quanto menos pessoas forem encaminhadas para serem entubadas em leitos de UTIs, mais são as chances de recuperação.

Os dados e pontos aqui levantados podem ser facilmente pesquisados por qualquer pessoa em sites de buscas. Para essa pandemia de desinformação, não há outro tratamento senão uma dose pesada de curiosidade e busca pela informação.

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